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Tadzio Goldgewicht

23 de novembro de 2011

Fringe e a renovacao do gênero de Ficção Científica

Os rumores de um possível cancelamento da série nos fazem pensar sobre o que compõe uma boa série de ficção científica

Não é incomum para o fã de series de ficção cientifica olhar para trás lembrando-se de um passado melhor. A boa ficção cientifica consegue passar ao espectador diferentes emoções, notoriamente aquelas advindas da aventura, do mistério, do suspense e da angustia. Mais ainda, a boa ficção faz isso de forma inteligente e cativante. Porém, apesar de séries de ficção serem uma constante nos canais americanos e europeus, poucas delas são inteligentes ou cativantes. Menos ainda são aquelas que conseguem ser inteligentes ‘e’ cativantes. Fringe é uma destas series.

O gênero da ficção cientifica pode ser maravilhosamente cativante ou fatalmente limitado. Fringe é uma daquelas poucas séries do gênero que trata o espectador com respeito à sua inteligência e capacidade de raciocínio. Talvez isto aconteça porque os escritores e produtores tratam o público como adulto. Sim, Fringe é uma série que provavelmente não terá seu maior apelo dentre os adolescentes fãs de Crepúsculo. A temática da serie é mais inteligente e adulta, de forma que tem, naturalmente, maior apelo dentre os que já passaram pela sua adolescência televisiva.

Fringe - pôster

'Séries de ficção direcionadas ao público adulto são poucas' (foto: divulgação / Fox)

Os últimos dias nos trouxeram, infelizmente, noticias de baixa audiência da série e de um possível cancelamento. Para você, que como eu e muitos outros mundo afora apreciam a boa ficção cientifica, a noticia é realmente desanimadora. Desanimadora porque a série nos oferece, semanalmente, um encontro com historias fantásticas, tramas mirabolantes, personagens cativantes e atores do primeiro escalão. Sim, é verdade, nem todos os que participam da série tem atuações fantásticas, mas o grupo principal de atores composto por Lance Reddick (Phillip Broyles), John Noble (Walter Bishop), Joshua Jackson (Peter Bishop) e Anna Torv (Olivia Dunham) tem tido atuações muito boas, especialmente Lance Reddick e John Noble, que semana após semana nos brindam com atuações de grande calibre.

Não são somente os atores que cativam os fãs da série. A trama central de cada temporada é sempre bastante elaborada, e por muitas vezes não se revela antes dos últimos capítulos de cada ano. Mais do que isso, e evolução da trama central, sua interação com as tramas paralelas e o desenvolvimento pessoal dos personagens mais importantes acontecem sempre de forma harmoniosa e interessante. É claro, existe sempre um toque de filme B, uma pitada aqui e ali de alguma bobagem e a utilização de clichês, mas isso tudo faz parte da boa ficção cientifica. É claro que o gênero deve estar atrelado a ciência, a novas descobertas e ao desconhecido, porém o espectador não está interessado em um documentário sobre ciência, de forma que a utilização de clichês diversos e o clima B ajudam a dar um ar mais ameno a série. Na medida certa, a utilização destes elementos cria uma ótima série de ficção cientifica. Porém, quando são por demais utilizados, e série fica boba demais e sua aceitação ou não vai depender da boa vontade do público em ignorar tais recursos. Claro, se a série estiver voltada para um público mais adolescente, a utilização de tais recursos provavelmente passará desapercebida. Um ótimo exemplo era a serie Stargate SG-1, que tinha por vezes ótimas histórias e sólidas tramas, mais que pecava por apresentá-las de forma muito simples (até mesmo infantil) e, do ponto de vista adulto, desconexa.

Fringe é uma daquelas poucas séries do gênero que trata o espectador com respeito à sua inteligência e capacidade de raciocínio

Desta forma, fica claro porque o público mais adulto ainda se sente órfão de boas séries de ficção, tais como X-Files. Boas séries de ficção sempre tivemos, porém aquelas que são direcionadas especificamente ao público mais adulto são realmente poucas se comparadas com aquelas que visam um publico mais jovem. A televisão sempre foi um grande business, e precisamos entender que os grandes canais e produtores tem que pensar primeiramente no lucro que cada série pode gerar. Dentro desta lógica, quanto mais abrangente for o público alvo de uma série maior serão as possibilidades de retorno financeiro para o canal onde ela é exibida. Assim sendo, uma série que tenha como audiência alvo um grupo que abranja adolescentes, jovens e jovens adultos terá muito mais potencial de retorno do que uma série que atinja apenas jovens-adultos e adultos. Evidentemente o exemplo acima não abrange todas as variáveis, sendo apenas um exercício de imaginação, mas o conceito não está longe da realidade.

Fringe e uma série que cativa, mas que também faz pensar. Pensar, atualmente, é um hábito cultivado por uma minoria. Reflexo da globalização? McCultura? Quem sabe… O fato é que séries que cativam sem que o telespectador tenha que pensar são notoriamente mais aceitas pelos mais jovens. Além disso, os adolescentes e jovens adultos tem mais tempo livre do que a grande maioria dos adultos. É muito mais seguro apostar em uma série que tenha apelo aos mais jovens. É assim que a banda toca. Todavia, nós, que já passamos pelas fases de Crepúsculo e Stargate SG-1, também gostamos de uma boa série de ficção cientifica, e ao redor do mundo, esperamos semanalmente pelo mais novo episódio de Fringe. Nós certamente esperamos que a série consiga alcançar as expectativas estabelecidas pela Fox e que possamos, semana após semana, nos deliciar com historias fantásticas e grandes atuações. Porem, se os rumores se concretizarem e a série for cancelada, teremos ao menos tido o prazer de ter feito parte deste mundo onde realidades paralelas coexistem, onde o impossível se torna plausível e a imaginação é o limite. Amigos, esperemos. Uma coisa pelo menos ainda é certa: semana que vem tem mais Fringe.

Tadzio Goldgewicht é formado em literatura chinesa, vive na China há mais de 10 anos e acompanha as principais séries de TV do ponto de vista internacional

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